Gronelândia
Ponto de partida: se os EUA quiserem invadir militarmente a Gronelândia, a Europa não conseguirá impedi-los. Ponto.
Para alguns, isto pode querer dizer que nada mais há a discutir, é ceder em toda a linha e deixar que a lei do mais forte se imponha tranquilamente, ao povo gronelandês não restando outra opção senão aceitar o facto consumado.
Para quem tenha um pouco mais de coluna vertebral, não é assim. Desde logo porque esta situação traz reminiscências de 1938, quando os checoslovacos não foram tidos nem achados na anexação dos sudetas. Na altura, o pretexto era étnico, agora é de segurança, mas o objectivo real é o mesmo, e chama-se expansão territorial. Depois, porque temos obrigação de ainda não ter esquecido essa época e os resultados que a política de cedência em nome do apaziguamento trouxe. Finalmente, por uma questão de princípio: querem tomar, que o faça pela força, militar ou outra.
O envio de tropas para a Gronelândia é um excelente começo, porque implica que os EUA, se quiserem conquistar, terão de disparar o primeiro tiro. É totalmente diferente ocupar um território desarmado do que ter que matar tropas de países aliados, e a clique de Trump sabe isso muito bem (a bravata, essa, não diminuiu nem diminuirá, é modus operandi, e já devíamos ter aprendido a lidar com isso). Tenha-se, desde logo, em conta que uma invasão militar terá de ser aprovada pelo Congresso, e tenho dúvidas de que passasse, pois há cada vez mais republicanos a votar contra Trump. Depois, os EUA ainda fazem parte da NATO, e um país da NATO atacar outro país da NATO criaria uma situação que acho que nem os mais loucos daquela administração querem. Terceiro, o pretexto da segurança pode servir, pelo menos naquelas cabeças, para forçar a vender, já para atacar sem qualquer provocação me parece improvável que sirva.
Temos também a retaliação económica. Contra as tarifas, medidas cirúrgicas. Procurar novos mercados para exportação. Limitar a acção de empresas americanas, cortar as exportações de Ozempic e insulina para os EUA. Por exemplo. E para quem diz que isso só faria cócegas aos EUA, eu respondo com "coluna vertebral, estúpido!".
Trump é um bully. Como todos os bullies, cheira a fraqueza à distância e alimenta-se dela. Sabemos quem ganha se chegarmos a vias de facto. A questão é se Trump quer chegar a vias de facto. Tenho dúvidas: uma coisa é tirar um Maduro de uma república das bananas, outra coisa é entrar em guerra com um país aliado.
No fim do dia, os EUA terão a sua Gronelândia, isso é evidente, mas garantir-lhes o acesso militar (que já têm desde o final da II Guerra, convém lembrar), mesmo que mais amplo, é muito diferente de ceder-lhes o território. Os bullies hesitam, quando não recuam, quando se lhes faz frente, pelo que a Europa tem dois caminhos: ou se acobarda e perde tudo ou faz frente e tem uma hipótese de se sair airosamente.
Os próximos tempos dirão qual o caminho que a Europa decidiu trilhar.