O direito à greve e a comichão que provoca
Sempre que há uma greve, logo surgem personagens mais ou menos sinistros perorando contra os incómodos que a greve lhes causa. Como se o objectivo de uma greve não fosse - precisamente - causar perturbação.
Eu percebo que, do ponto de vista do utente, uma greve é uma chatice. Uma greve dos controladores aéreos franceses, uma vez, custou-me 500 paus e não achei piada nenhuma. Na altura quis levar aqueles poltrões para o Campo Pequeno e soltar uma manada de toiros de cobrição para lhes fazer companhia. Mas esses estados de alma são para ter no recato do lar, senão mesmo do pensamento. E, numa pessoa sã, são passageiros. Mesmo que se trate de franceses, para quem ter acordado com os pés de fora é motivo bastante para fazer uma greve, quando não para partir tudo.
Já os ditos personagens mais ou menos sinistros optam por tornar público o seu desagrado perante o atrevimento da maralha. E, como a greve é feita maioritariamente pelo sector público, lá vem a habitual ladainha de que os funcionários públicos são uns calaceiros que adoram fins-de-semana prolongados (bolas, quem não adora um bom fim-de-semana prolongado?) cujos postos de trabalho deviam ser extintos a bem da nação. E não deixa de ser curioso que os que dizem que os funcionários públicos são uns parasitas chamam populista ao outro que diz que os imigrantes vivem de subsídios, sem sequer se darem conta que o discurso é exactamente o mesmo.
E quem são os ditos personagens? Bem, normalmente são quem ou já nasceu na bolha do privilégio ou a ela se alcandorou em algum momento, que é como quem diz que, independentemente de o terem adquirido ou herdado, nutrem um desprezo bastante evidente pela classe trabalhadora. São criaturas que, por norma, exigem um estado mínimo, mas que, ou vivem de negócios com o estado, ou mamam subsídios do estado ou berram por ajuda do estado quando uma qualquer crise torna o sacrossanto mercado num mar de tormentas. Liberais à portuguesa, portanto.
Vamos ver se nos entendemos: uma greve é uma chatice, greves coladas ao fim-de-semana não abonam muito em favor de quem as faz, por vezes faz-se greve por tudo e por nada (e, sim, os sindicatos, muitas vezes optam por defender a mediocridade à conta de tácticas políticas), mas 1) a greve é um direito e 2) uma greve, se não perturbar, não serve para nada.
Finalmente, o facto de a greve ser um direito maioritariamente exercido pelos trabalhadores do estado. Alegam os tais personagens que os ditos trabalhadores só o fazem porque podem não trabalhar sem risco de serem despedidos. Ora, num país onde um CEO chega a ganhar mais de 200 vezes o valor médio dos seus trabalhadores (ou colaboradores, como eles gostam de lhes chamar), é caso para perguntar por que razão estes últimos não fazem greve. Tenho para mim que é por receio de - precisamente - serem despedidos ou sofrerem outro tipo de represálias. O que, se eu tiver razão, é grave. E, como vivo num país onde se continua a despedir grávidas, é bem provável que eu tenha razão. Ou seja, os ditos personagens mais ou menos sinistros tocam no ponto, só que ao contrário.
É preciso ter cuidado com esta gente, porque não vão desistir enquanto não reduzirem os direitos laborais à expressão mais simples. Para já, com a ajuda do Luís e da inefável Palma Ramalho, estão - para mal dos nossos pecados - no bom caminho.
P.S. Por opção, nunca fiz greve, mas fico irritado quando se põe em causa o direito à mesma.