O Mundial de Futebol

Passei os últimos meses a dizer, convictamente, que não iria ligar peva a este Mundial, por várias razões, desde a seleção portuguesa ser desde há muito a equipa do Mendes e do Ronaldo, por ser nos EUA, pelos desmandos do ICE e demais organizações policiais daquele país, enfim, por muitas e boas razões.

Mas, claro, como adoro futebol, lá acabei por dar 35 paus à SportTV (pelo menos, esperei até faltar menos de um mês para a final) e até agora não me arrependi.

Vi Cabo Verde encantar-nos com o seu futebol, defensivo ma non troppo, eficaz qb, roubando pontos à Espanha, ajudando a mandar o Uruguai para casa e impondo respeitinho a uma Argentina que julgava que seria como limpar o cu a meninos.

Vi, estou a ver, a Noruega com um dos melhores ponta-de-lança do mundo, uma besta que arrumou com o Brasil, que, mais uma vez, estava convencido, tal a falta de noção, que este era o ano do hexa. Foi, mas da hexaeliminação. Venha agora a Inglaterra, que tem Kane e pouco mais, mas quem tem um Kane tem muita coisa.

Vi, estou a ver, a França que, qual Brasil de 82, apenas poderá ser travada por um qualquer Paolo Rossi à frente de um catenaccio eficaz. Ao Paraguai faltou arte para tal, como disse amigo chegado, não passam de jagunços sem vergonha.

Não vi o México porque horas impróprias, mas tenho pena. Não vi os EUA, felizmente, mas estou muito contente que, depois da batota, tenham sido eliminados por uma Bélgica que nem sabia muito bem como estava ali, mas que se encheu de brios para este jogo, e o Mundo agradeceu.

Vi as seleções da África subsariana jogarem à bola como nunca, mas a perderem como sempre. A matreirice do mata-mata ainda não mora ali, para grande pena de quem, como eu, gosta de futebol. Restam as do norte de África, à hora que escrevo o Egipto ainda pode mandar o Messi para casa, e Marrocos continua a mostrar que tem uma equipa a sério.

Vi, estou a ver, o Messi, aos 39 anos, mostrar que ainda decide jogos e, mais uma vez, não que fosse preciso, é um talento muito maior do que o nosso Ronaldo.

Ora, falemos de Ronaldo. Um futebolista que foi enorme, o melhor português de sempre, mas que hoje não passa de um cepo, sem velocidade, sem explosão, com uma pequena parte do instinto de matador que teve, que não arrisca no um para um, que não ganha uma bola aos defesas, que faz passes para trás, que mal se mexe em campo. Uma coisa tem ele no pico da forma: o ego. E, à pala do ego, anula uma equipa que, sem ser deslumbrante e ainda menos com categoria para ser campeã do mundo, tinha possibilidades de fazer muitíssimo mais. Ronaldo é, desde há pelo menos quatro anos, um activo tóxico da Selecção, a Selecção que se diz de todos nós, mas que, na realidade, é dele e do Mendes, com um pau-mandado de competências medíocres como seleccionador e com o alto patrocínio da FPF, no limite, a principal responsável do, parafraseando Salgueiro Maia, estado a que chegámos. A FPF escolheu o dinheiro: CR7 continua a render no plano financeiro. Que se foda o plano desportivo. As multidões, incultas também em coisas de bola, querem ver o CR7 e estão-se borrifando para o resultado da selecção. A FPF dá ao povo o que ele gosta, e quem gosta de futebol que aguente. Eu gostava que alguém chegasse ao pé do Ronaldo e lhe dissesse obrigado por tudo, mas já chega, não pões mais os pés aqui. Claro que não vai acontecer. Com um bocado de sorte, ainda o apanhamos no Euro 2028 e vamos ter o lobby para a sua cria mais velha, cujo futebol se desconhece, ter lugar cativo na selecção. Coragem para correr com o Mendes também não há. O Mendes tem demasiado poder, maior que as mamas da mulher, e isso, como sabem, é muito.

Portanto, desenganemo-nos: as convocatórias vão continuar a ser feitas em nome de tudo menos da qualidade futebolística e da forma dos jogadores. A selecção vai continuar a carbonizar talento e o povo continuar a sofrer por ela. Com sorte, o apoio vai começar a erodir e, nessa altura, quiçá haja uma oportunidade de mudança.

Viemos para casa e viemos bem. Não se aguentava ver o velhinho a estar em campo (ia escrever jogar) os minutos todos. Com a saída dos batoteiros americanos temos a garantia que nos quartos-de-final só vão estar equipas que sabem jogar à bola.

Quanto a mim, vou continuar a ver os jogos e a torcer pela Noruega enquanto eles lá andarem. E a esperar por um Paolo Rossi, que bem pode ser alto e loiro, que arrume com França. Seria épico. Como dizia o outro, deixem-me sonhar.


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