Donald Trump e o regresso do Imperialismo Americano

Já passaram uns dias desde que Trump resolveu armar-se em cobói e ir sacar um bad hombre da sua cama, a meio da noite, e num país distante, por isso, se calhar é altura de eu já dizer qualquer coisa sobre isso, ainda que tal interesse a zero pessoas e ninguém mo tenha pedido.

 

Nicolás Maduro

Um misto de ditador e bobo da corte, governa(va) o país com mão de ferro e em fato de treino azul e amarelo. Herdeiro político de Hugo Chávez, mas com 1% do carisma e 0,5% da inteligência, aprofundou o trabalho de afundar a economia do país com as maiores reservas de petróleo à face da terra, porque continuou o que o chavismo fazia de mau e deixou de conseguir fazer o que fazia de bom, por pouco que fosse. Em suma, um traste que não é merecedor de uma lágrima ou lamento que seja. A questão aqui não é Maduro, ponto.

(percebo a reacção dos venezuelanos no exílio, faria o mesmo, mas cuidado, não acabem a vender a alma ao Diabo)

 

A operação

Não há nada a dizer, foi uma operação magistral. Bem preparada e melhor executada. Ter fraca oposição terá certamente ajudado, mas não tira mérito. Infiltração de agentes no terreno com a devida antecedência, existência de activos dentro da estrutura de poder, até um analog twin do complexo onde vivia o Maduro para ensaiar. Mais uma para ensinar em West Point.

 

A (i)legalidade

O que nos distingue dos selvagens são as leis e o seu cumprimento. É certo que os EUA sempre tiveram o hábito de fazer o que queriam, mas havia contexto (ou, como dizia ontem o Daniel Oliveira, cortesia). Não que isso sirva de justificação, mas havia. Até aos 80 era a Guerra Fria e o medo do comunismo. Em 2003 era a ressaca do 11 de setembro. Hoje, há uma clique de bullies, uns mais inteligentes, outros mais desmiolados, todos sem escrúpulos, todos perigosos, os inteligentes mais,cujo único objectivo é mostrar que são os mais fortes a quem os outros países devem dobrar o joelho.

Mais: nas outras vezes, ao menos o Congresso era consultado. Ao menos dentro de portas cumpriam-se os preceitos legais. Hoje, nem isso. A clique trumpista entendeu que, mais uma vez, não tinha de dar cavaco ao Congresso e avançou com tudo. Isto depois de Rubio ter dito aos congressistas que não senhor!, os EUA não tinham qualquer cobertura legal para actuar militarmente na Venezuela. Por uma vez, Rubio estava correcto. Como sempre, borrifou-se.

Para tentar compor as coisas a anteriori, arranjaram-se umas acusações de narcotráfico, o que até é provavelmente verdade, mas a verdade é que a Venezuela está longe de ser a principal origem da droga que entra nos EUA. Fosse por aí e o México já estaria invadido há muito. Na realidade, era preciso encontrar uma desculpa que não fosse apenas dizer que o homem era um bad hombre. E como aos traficantes não se declara guerra, e não havendo guerra, não é necessário maçar os senhores congressistas, a operação militar foi travestida de law enforcement, assim um pouco como colocar uns óculos escuros num elefante e esperar que ele passe despercebido, mas sem preocupações de maior, porque quem pode, manda, e os outros - aqui se inclui o Congresso - comem e calam.

"Direito Internacional" é mais do que duas palavras. É o que, por pouco que seja, vale a países como o nosso, que uns EUA invadiriam em meia hora, e em bermudas e pranchas de surf, face a potenciais agressões externas. Ver tanta gente na Europa em geral e em Portugal em particular, ignorar flagrantes ilegalidades só porque Maduro era mau, faz-me confusão, e a razão é simples: quem decide quem é mau não são os europeus. Se, um dia, Trump (ou, mais provavelmente, Putin) decidir que os portugueses são maus, agirá em conformidade e aí bem podemos chorar, que de pouco nos valerá.

 

A reacção da UE

Pusilânime, não há outra palavra. Temerosos, cobardes, incapazes de, ao menos, mandar um par de berros. Podemos não ter arcaboiço para os EUA, mas há mínimos. Em França, a Le Pen foi a única a berrar, com o Macron envergonhado por não poder dizer à boca cheia que até tinha gostado de que Maduro tivesse sido removido.

Pior, os bullies têm um olfacto mais apurado para a fraqueza do que os tubarões para sangue, e a prová-lo está o regresso da questão da Gronelândia. Mas esse é tema para outro post, se me aprouver.

Uma menção desonrosa para o nosso Governo, cuja reacção foi de uma falta de coluna vertebral assombrosa. A intervenção até foi "benigna", disse Rangel, ansioso por agradar ao poderoso aliado(?). Não terá havido reacção mais subserviente do que a nossa, o que, face ao panorama das reacções dos estadistas de pacotilha europeus, é obra. Ao menos, nalguma coisa ficamos em primeiro, pena é que seja só no que não interessa.

 

O futuro

Não é coisa com que os americanos se costumem preocupar. No Iraque foi o que foi, aqui será o que será. Aos EUA interessa apenas uma coisa chamada petróleo. O povo venezuelano é uma maçada com a qual se pretendem preocupar o mínimo possível. O regime, desde que colabore, pode ser qualquer um, não nos esqueçamos que foram os mesímíssimos EUA que derrubaram um presidente eleito e colocaram no seu lugar um certo Augusto Pinochet que, como toda a gente sabe, era um santo homem.

Corina Machado, a idiota útil de serviço, foi liminarmente chutada para canto. Por ser mulher, provavelmente, mas há quem diga, e o pior é que é bem capaz de ser verdade, por ter tido o desplante de aceitar um Prémio Nobel da Paz de que Trump se achava único e digno mercedor.

E quem está na calha para suceder a Maduro não é quem terá tido mais votos nas últimas presidenciais, mas sim a sua vice. Que começou por berrar, recebeu umas ameaças muito pouco veladas em troca e logo tratou de alterar o discurso para um tom mais de acordo com um inquilino do quintal do Tio Sam.

Portanto, mudar tudo para tudo ficar na mesma não está fora de hipótese, aliás, é cada vez o cenário mais provável, porque vão ser necessários uns valentes milhares de milhões para reerguer a indústria petrolífera que o chavismo destruiu, e ninguém quer estar a investir num país instável. Aguardemos para ver o que nos trazem os próximos tempos e quanto isso irá baralhar os planos de apropriação em curso. Porque se Trump metesse boots on the ground (e o Senado já lhe está, à cautela, a cortar as vazas) estaria a cometer suicídio político,  e não se governa um país do tamanho da Venezuela, e com a quantidade de armas que há na Venezuela, por procuração: vai ter de ser alguém de lá. Não sei se os venezuelanos ainda estão a comemorar, eu diria que os festejos são capazes de ter sido, digamos, prematuros.

Se tivesse de apostar, dira que o mais seguro para os EUA é uma solução de continuidade com um regime agora cooperante, o que não deve ser difícil de conseguir, por uma questão de sobrevivência, política e não só. Veremos o que nos trazem os tempos mais próximos.

 

 

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