O LinkedIn
Sou utilizador de redes sociais, e o LinkedIn é uma das várias em que tenho conta (sim, também tenho Facebook, não me julguem - ou julguem, é-me igual ao litro).
Mas o LinkedIn é diferente. Mesmo para quem tem Facebook, é diferente. Se o Facebook é sério, o LinkedIn é seriíssimo. Se o humor, pelo menos o humor inteligente, é escasso no Facebook, no LinkedIn, o humor, qualquer humor, é quase um crime de lesa-pátria e garantia de jamais suscitar o interesse de um caçador de cabeças. Pronto, de um head-hunter, em estrangeiro soa melhor. Ironia? Sacrilégio. Sarcasmo? Heresia. Ali trabalha-se, ou melhor, colabora-se, não há tempo a perder com frescuras.
O LinkedIn é rede de várias tribos. Vamos a algumas:
Para começar, a dos lambe-botas. Lambe-cus. Chupa-pilas. Brochistas. Enfim, cocksuckers, que os pacóvios valorizam os anglicismos e não os queremos tristes. Qualquer post absolutamente anódino é acompanhado por uma miríade de polegares erguidos e aplausos. E mensagens de apoio, que ganham novo fulgor em posts não anódinos, sobretudo posts LGBTfóbicos, racistas ou xenófobos. Portanto, os cocksuckers são racistas e xenófobos. Surpreendendo um total de zero pessoas e uma tartaruga das Galápagos.
A tribo do auto-fellatio é também prevalente no LinkedIn. Muitos do que o praticam pertencem também à tribo dos lambe-cus, e caracterizam-se por "gostar de compartilhar" coisas. Fiz uma formaçãozeca da treta? Gostaria de a compartilhar. Recebi um prémio obscuro? Gostaria de o compartilhar. Dei um pum? Estou excitadíssimo/a por o compartilhar. Em comum? Ninguém, absolutamente ninguém, quer saber. Mas eles não se mancam, porque a Noção, nesta tribo, é mais escassa do que oxigénio na Lua.
Adiante.
Há também a tribo dos líderes. Na realidade, quase todo o utilizador do LinkedIn é líder ou aspirante a líder. No LinkedIn não há lugar para os comuns, essa gente que passa a vida a dizer mal de tudo em vez de agradece ao seu líder o salário que este faz o favor de lhe outorgar a cada final de mês. O aspirante a líder, por sua vez, é, regra geral, um lambe-cus e adora o auto-fellatio. Adula os líderes e ai de quem diga mal deles. Porque, embora nunca venha a passar de um borra-botas porque lhe falta talento para mais, tem aquela característica muito portuguesa de endeusar gente com dinheiro, independentemente de serem ou não boas pessoas. O Ronaldo. O Musk. O Milhão. Os maiores, os exemplos a seguir!
Daqui emerge a sub-tribo dos Empreendedores. Aqueles para quem só interessa quem empreende, sendo o resto da maralha uma turba de calaceiros a quem importa pagar o mínimo possível, e só porque tem de ser. O Salário Mínimo é o Grande Satã, a Greve o Apocalipse, a Esquerda as Trevas. O Empreendedor é Líder, arriscou o próprio dinheiro (ou do subsídio, ou do papá), o que lhe dá o direito divino de não admitir criticas da plebe.
Finalmente, há os Gurus da Wish. Tiradas grandiloquentes sobre talentos, ambiente de trabalho - perdão!, de colaboração - os efeito de um colaborador tóxico, a resiliência, ah, sim!, a resiliência, quem não é resiliente é uma espécie estranha que deve ser ajudada para um dia vir a sê-lo. Todo o utilizador do LinkedIn tem um coach dentro dele, um Gustavo Santos do Empreendedorismo, pronto, sem que alguma alma alguma vez lho tenha pedido, a espalhar a sua infinita sabedoria pelos desgraçados que ainda não viram A Luz. O mais triste? É que há quem lhes ligue. As pessoas adoram comprar banha-da-cobra, fazer o quê?
No LinkedIn não há trabalhadores. Há colaboradores. Todos colaboram ou têm colaboradores, pois de colaboração em colaboração se constrói o sucesso, e não há utilizador do LinkedIn que não seja uma pessoa de sucesso. Aliás, o LinkedIn tem um jargão muito próprio: os colaboradores. A resiliência. A persistência. O sucesso. A liderança. Os posts em inglês, para português ler. A empatia. A Valorização dos Recursos Humanos, à moda da Padaria Portuguesa, pois claro, não têm pão?, comam Espírito de Equipa, vamos lá organizar uns jogos, quanto mais imbecis, melhor, para todos nos alimentarmos adequadamente. A Sustentabilildade. E outros que tais. Basta um post do género de "Ontem teve lugar uma sessão onde os colaboradores fortaleceram o espírito de equipa, treinando resiliência de uma forma sustentável" para a rede vir abaixo com aplausos, likes e comentários do tipo "Arrasou!". Uma maravilha ou, como dizia o meu professor de matemática da secundária, uma maravalha.
No meio disto tudo, não me admira que não me encaixe naquela rede. Não sei o que escrever ou como reagir sem ser com ironia ou sarcasmo perante tão tristes figuras. Com o pouco que já postei, a minha classificação deve andar ali entre o maluquinho da aldeia ou uma pessoa que não sabe estar. Um triste que, em qualquer reunião de equipa, quando lhe perguntam do que mais gosta, responde "comer e beber".
Uma pessoa que não serve para o LinkedIn, portanto.